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Tapete voador
25.agosto.1999

O brasileiro David Neeleman quer fazer fortuna com aviação nos Estados Unidos. A fórmula: bons serviços e preços baixos

Tania Menai, de Nova York

Senhoras e senhores passageiros, bem-vindos a bordo da jetBlue Airways. Durante o nosso vôo doméstico, partindo de Nova York, estiquem bem as pernas, degustem o nosso cardápio - que não se resume a um saquinho de amendoim -, desfrutem a sua televisão individual e a simpatia do nosso pessoal de bordo. E sorriam. As passagens custaram menos do que a metade do valor de mercado e os senhores não se estressaram nem para embarcar, muito menos para fazer reservas."

O texto parece brincadeira para quem costuma embarcar nos vôos domésticos que ligam as cidades dos Estados Unidos. "A aviação doméstica americana é sinônimo de dor de cabeça. Preços altos, serviços ineficientes, longas filas de embarque e aviões obsoletos", diz David Neeleman, 39 anos, presidente da jetBlue Airways, a mais nova companhia aérea do país. A empresa, que começa a operar no início do ano 2000 com vôos partindo do aeroporto JFK, em Nova York, nasce com uma proposta que pode gerar turbulências no setor de aviação civil regional. Pelos planos de Neeleman, um brasileiro filho de americanos, as passagens da jetBlue custarão 65% a menos do que o preço da concorrência. Cada assento das aeronaves terá uma TV com 24 canais a cabo, DirectTV, fone de ouvido com som de alta definição e um menu que vai muito além do amendoim com Coca-Cola.

A jetBlue (nome que casa a idéia de tecnologia com a cor preferida de Neeleman) já entrou para a história como a maior start-up da aviação. Neeleman conseguiu arrecadar nos últimos anos 130 milhões de dólares com megainvestidores como George Soros, o Weston Presidio Capital, o BankBoston, o BankAmerica e o Chase Capital. A história de Neeleman é um exemplo de como o capital americano aceita riscos enormes em troca de uma oportunidade de lucro.

Grisalho de olhos azuis, Neeleman é filho de americanos membros da Igreja Mórmon, religião típica dos habitantes de Salt Lake City, no estado de Utah. Seu pai foi missionário no Brasil aos 19 anos. Gostou tanto do país que, depois de se casar nos Estados Unidos, decidiu retornar com a mulher. Neeleman nasceu em São Paulo e viveu no Brasil até os 5 anos, quando a família retornou a Salt Lake City. Seguindo a tradição dos mórmons, tornou-se missionário aos 19 anos, como o pai, e serviu no Nordeste brasileiro por dois anos. Até hoje ele cultiva as amizades da época, mantém a cidadania brasileira, adora a churrascaria Plataforma de Manhattan e fala o português, que chama de "língua dos anjos". "Ter sido missionário foi fundamental para a minha carreira. Aprendi a lidar com as pessoas, a ter disciplina e a estudar. Sem essa experiência, eu não teria chegado até aqui", diz ele.


Neeleman cursou contabilidade na Universidade de Utah, mas nunca chegou a concluir a faculdade. Foi presidente e sócio da Morris Air, companhia aérea baseada em Utah, vendida para a SouthWest Airlines em 1993. Depois, trabalhou como consultor da canadense WestJet Airlines, empresa aérea com foco em passagens baratas. A SouthWest, sediada no Texas, foi o grande modelo adotado por Neeleman para a criação da jetBlue. A empresa voa para 55 cidades de 29 estados americanos, opera em pequenos e médios aeroportos e faz reservas on-line.

Neeleman veste camisa pólo para trabalhar, não pára quieto, fala com diversas pessoas ao mesmo tempo e anota números de telefone na palma da mão. "Para uma pessoa com Síndrome de Déficit de Atenção, não há estímulo maior do que começar uma nova companhia aérea com o maior investimento da história da aviação doméstica dos Estados Unidos", diz ele. "Minha euforia é tanta, que me sinto sob efeito de drogas, mas não bebo nem Coca-Cola." Neeleman é portador da síndrome desde criança. A SDA, como a doença é mais conhecida, provoca falta de atenção ou entusiasmo excessivo em relação a determinados assuntos. "Meu irmão tem a doença. Aos poucos percebi em mim algumas das vinte características mais comuns, mas não chego a tomar remédios", diz. "Sentimos uma eterna sensação de insatisfação. Nunca chegamos ao limite dos nossos objetivos. É como se bebêssemos água mas a sede continuasse ali." Uma de suas crises aconteceu logo após a venda da Morris Air para a SouthWest. Numa reunião com os novos controladores da empresa, Neeleman começou a falar compulsivamente. "Eu dizia que todas as idéias apresentadas por eles eram tolas", diz. "Foi uma catástrofe."

A idéia de criar a jetBlue já rondava a cabeça de Neeleman há um bom tempo. Mas até o dia 31 de dezembro do ano passado, ele estava sob contrato de "não concorrência". Por ter vendido sua parte da Morris Air para a SouthWest por cerca de 20 milhões de dólares, Neeleman não poderia trabalhar no setor americano de aviação doméstica por cinco anos. Vencido o prazo, Neeleman passou a buscar investidores interessados em seu projeto. Ele já tinha relações com bancos ligados às companhias aéreas e, por meio de um amigo, foi apresentado a George Soros. Hoje a jetBlue tem 30 funcionários. Até o fim do ano 2000 deverão ser 1 000. "Sempre acreditei que, se você tem dinheiro suficiente para começar uma companhia aérea, a prioridade é comprar novas aeronaves", diz Neeleman. "As companhias aéreas utilizam aviões antigos e por isso gastam fortunas com seguros e manutenção."

Segundo Neeleman, a mão-de-obra é a maior despesa para qualquer companhia aérea. Em seguida, vêm as aeronaves e em terceiro lugar o combustível. Cada tipo de avião exige equipes de pilotos, manutenção, terminais de embarque e serviço de bordo diferentes. Ao trabalhar com apenas um modelo de aeronave, a empresa pode aproveitar melhor suas equipes de trabalho. Isso representaria uma redução de cerca de 50% nos custos. O sistema de reservas será totalmente automatizado e permitirá operações de minutos por telefone ou pela Internet.

A jetBlue comprou 82 Airbus A-32, avaliados em 4 bilhões de dólares. No primeiro ano, a empresa vai operar com dez aviões ligando 12 cidades americanas. Até 2002 serão 30 aeronaves. Cada uma tem capacidade para 162 passageiros, que terão mais espaço para esticar as pernas e acomodar as bagagens de mão. "O preço das passagens vai atrair os clientes. Mas o bom serviço vai fazê-los voltar", diz Neeleman, que pretende transformar as horas de vôo em entretenimento. "As pessoas querem informação e diversão 24 horas por dia." E uma equipe "simpática" (palavra que ele escandiu em bom português) vai ser um diferencial. Neeleman acredita que o mesmo sistema pode funcionar em empresas brasileiras. "A TAM é um exemplo de bom serviço, mas ainda utiliza diversos tipos de aeronave", diz ele. "Assim não há como reduzir os custos."

O escritório da jetBlue fica no centro de Manhattan. Neeleman, que até julho vivia em Utah, se mudou para Connecticut. "Eu sempre vinha a Nova York, mas agora trabalho apenas a uma hora de trem da minha família", diz ele. Neeleman tem nove filhos com idades que vão de 17 anos a 3 meses de idade. Todos são filhos da mesma mãe, a americana Vicky. "No Brasil, ela ganhou o apelido de Vicky-Vaporub. Adorei e passei a chamá-la assim." Neeleman conta que sua vida se resume a trabalho e família. "Não tenho tempo nem para os amigos. A opção de ter tantos filhos é da minha mulher. Eu sou mais voltado para o trabalho." Alguém precisava garantir o leite das crianças...


[ copyright © 2004 by Tania Menai ]

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