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Pega na superestrada
28.junho.2000

Tania Menai, de Nova York

A indústria automobilística americana vendeu 16 milhões de veículos e movimentou 350 bilhões de dólares em 1999. Até hoje, esse bolo - o maior do mundo - era dividido entre montadoras e concessionárias feitas de tijolo e vidro. Até hoje.

A Internet está atropelando o jeito tradicional de vender automóveis nos Estados Unidos. Estima-se que cerca de 50% dos compradores de carros novos americanos sejam influencidados pela rede na hora da compra. Já há no país cerca de 350 sites operados por montadoras, 4 000 por revendedores e 150 por fornecedores de serviços e de autopeças.

Os sites de automóveis costumam dar todos os detalhes sobre modelos, garantias e financiamentos. Em muitos deles, é possível negociar preço - com a vantagem de que home pages nunca ficam de mau humor por estar de plantão.

Com tudo isso, há alguma chance de as concessionárias sobreviverem ao advento de revendedores digitais como o Autobytel.com?

Bill Demmer, cuja família vende carros Ford desde 1957 em Mayne, Michigan, acha que sim. Só que, em vez de remar contra a maré virtual com seu barco analógico, Demmer desenvolveu o site de sua revendedora, a A-Plan Headquarters, e a partir daí construiu relacionamentos com os consumidores baseados em fornecimento de informação e atendimento personalizado. "A rede facilita o processo de vendas: os consumidores já chegam à loja sabendo o que querem", diz Demmer, que comemora o recorde de 613 carros vendidos no mês de março.

A A-Plan Headquarters.com, no entanto, esbarra em concorrentes digitais de bitola muito mais larga, como o AutoNationDirect.com, uma aliança entre o provedor America OnLine (AOL) e a empresa AutoNation Inc., que reúne 400 revendedores de carros no país inteiro. Só neste ano, a empresa estima vender 72 000 carros - quase 200 por dia -, faturando 2 bilhões de dólares em transações online. Ou seja, a situação das concessionárias tradicionais em muitos momentos parece ser a seguinte: se ficar (no mundo dos átomos), o bicho pega; se correr (para o mundo dos bits), o bicho come.

As montadoras também estão expandindo suas operações para o domínio digital. A General Motors abriu recentemente uma incubadora em São Francisco para desenvolver novos projetos online. Segundo Rick Wagoner, presidente da empresa, o plano de vendas online da empresa, que vai demandar 87 milhões de dólares anuais, deverá cortar as despesas comerciais em cerca de 1 bilhão de dólares por ano. E a grande aposta da GM na Internet, o site BuyPower, fornece todo tipo de informação sobre a empresa e os carros, e indica os revendedores que têm em estoque o modelo que o cliente procura. A GM pretende expandir os serviços da BuyPower em 22 países onde a montadora tem operações, inclusive o Brasil.

Um alento para os competidores tradicionais é o fato de a vida dos sites de automóveis não ser exatamente cor-de-rosa. A CarsDirect.com, por exemplo, anunciou em maio seu IPO e a aliança com duas grandes revendedoras de Detroit. Especialistas acreditam que este é um mau momento para a empresa abrir o capital. Afinal, concorrentes como o AutoWeb.com estão negociando suas ações abaixo do preço mínimo fixado no IPO. A CarsDirect está operando no vermelho - perdeu 43,1 milhões de dólares no primeiro trimestre deste ano, sobre um faturamento de 98,6 milhões. Uma taxa de rentabilidade negativa de 43,7%. O páreo na superestrada é duro para todo mundo. Mas, ao que tudo indica, não dá para ficar fora dele.


[ copyright © 2004 by Tania Menai ]

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