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Casual complicado
23.agosto.2000

Tania Menai, de Nova York, e Cynthia Rosenburg

Você pediu. Você desejou. Você sonhou com o dia em que não teria de colocar terno e gravata, ou tailleur e salto alto, para ir ao escritório. Pois esse dia chegou. Ou está chegando, depende da empresa em que você trabalha. Essa é a boa notícia. A má é que você ainda pode sentir saudade dos bons tempos do formalismo do vestuário.

Escritórios como o da Credicard, em São Paulo, já adotaram o traje informal. A orientação veio do Citigroup, sócio gestor da empresa, que decidiu implementar o estilo casual no mundo todo. A sisuda corretora Merrill Lynch adotou o casual day nas sextas-feiras, depois passou para o casual durante todo o verão e, em maio deste ano, quando estava para voltar à era dos ternos e das gravatas, instituiu de vez o estilo casual, o ano todo.

"É curioso que o estilo casual tenha começado nos Estados Unidos, que são um país bastante conservador", diz o consultor de moda Fernando de Barros. Pois é lá que mais empresas aderiram à informalidade. Companhias com muita reputação a zelar, como Time Warner, McKinsey, Salomon Smith Barney, Swaine & Moore (uma firma de advocacia) e Goldman Sachs, todas adotaram o estilo casual durante o verão, muitas durante o ano todo. Se elas, que representam os setores mais conservadores da economia, já adotaram o traje informal, não falta quase nada para que a obrigatoriedade do terno vire coisa do passado.

Ótimo! Não era tudo o que você queria? Sim, mas... Segundo Scott Omelianuk, editor executivo da revista Esquire e autor do livro Things Men Should Know About Style (Coisas que os homens deviam saber sobre estilo), da editora Riverhead, a novidade está causando tanto ansiedade quanto anarquia. A ansiedade é daquele executivo que ganha 500 000 dólares por ano e, quando veste roupa casual, sente-se como um reles gerente de 20 000 dólares por ano. A anarquia, segundo Omelianuk, vem dos exageros, como o supervisor barrigudo indo trabalhar com uma camiseta que não lhe cobre a pança, bermudão e Rolex.

Muita gente acredita que adotar o estilo casual é dar um tiro no pé, porque a credibilidade da empresa fica prejudicada. Quem defende o traje informal diz que isso é bobagem, no máximo um risco mais do que compensado pelo ganho em criatividade. Ambos os argumentos são puro achismo. Nem se verifica que uma empresa perca reputação por deixar a gravata na gaveta, nem que ela tenha um surto de idéias geniais só por adotar calças cargo e camisas pólo. Omelianuk lembra que Matisse pintava quadros no verão do sul da França vestido de terno.

A grande vantagem do traje informal é que ele é... informal. Você não precisa dar nó de gravata, se não quiser, não precisa sofrer com um paletó num verão de 40 graus, não precisa sentir que voltou aos tempos de escola e está se vestindo com o mesmo uniforme de todos os coleguinhas. A grande desvantagem é que aquele cômodo ritual de tomar banho e vestir automaticamente as roupas de trabalho vai acabar. Bingo! Você conseguiu mais uma preocupação: como se vestir de forma adequada?

"Quando você se veste formalmente, tem certeza da imagem que passa. O problema do casual é que você agora depende da interpretação de outra pessoa", diz Silvana Bianchini, publicitária que fez um curso nos Estados Unidos e agora atua como consultora de imagem para grandes empresas. Ela já deu palestras na Merrill Lynch, na Lloyds e no Senac. Segundo Silvana, "você vende a sua imagem nos primeiros 15 segundos de contato. Nesse tempo, seu interlocutor o julga de acordo com a sua aparência em vários itens, como credibilidade e profissionalismo". O modo como você se veste, diz a consultora, pode ajudar ou atrapalhar seu desempenho.

A palavra-chave do estilo casual não é informalidade. É boa impressão. E adequação. Se você visita um cliente, ou vai a uma reunião em outra empresa, tem de estar vestido de acordo com a situação. Isso pode ser um problema. Carlos Eduardo Andrade, diretor de relacionamento da Credicard, que o diga. Estava vestido com calça de sarja e camisa de manga comprida quando descobriu que teria uma reunião com um cliente. Teve de voltar para casa, um trajeto de 1 hora, antes de ir para a reunião. Lá, descobriu que metade das pessoas não estava de terno. Agora, Andrade já aprendeu: o paletó e a gravata ficam no carro.

Sim, porque o terno vai sobreviver. O terno, ele próprio, já foi símbolo de traje casual. O paletó nada mais é do que uma amenização da formalidade do fraque. E o fraque, por sua vez, era uma amenização da formalidade daquelas roupas de seda justas no joelho que se usavam na época da Revolução Francesa. "O terno não vai acabar. Vai é evoluir", diz Fernando de Barros. "Passou de quatro para três botões, depois de três para dois. A gravata está mais fina: em vez de 12 centímetros, ela agora tem 9."

Omelianuk, da Esquire, diz: "Os ternos vão sobreviver porque serão feitos com tecidos mais leves e confortáveis, mais coloridos. O que acaba é a obrigação. Tudo que é obrigatório todo mundo odeia. Agora os homens podem usar seus ternos com mais prazer. Porque, afinal, a gente fica bem de terno".


[ copyright © 2004 by Tania Menai ]

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