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Guia universal dos banheiros
17.junho.2005

Tania Menai, de Nova York

Você está passando a lua-de-mel em Bishkek, na República do Quirguistão. Tudo está indo bem, quando de repente, aquela genuína necessidade orgânica lhe chama. O que fazer? Anote aí: há um ótimo banheiro na Beta Store, na Avenida Chui 150 A. O banheiro é limpo, seguro, de fácil acesso para deficientes físicos, possui fraldário e é divididos por sexos. Ambos dispõem de privadas. Mas se você preferir, há também a opção “cócoras”. Já na rodoviária de Camboriú, em Santa Catarina, o banheiro é unisex e custa cinquenta centavos. Fica aberto 24 horas, é limpo e seguro. Contudo, o mesmo não se pode dizer dos sanitários masculinos da estação de metrô da Praça da Sé, em São Paulo. Sem entrar em detalhes, digamos apenas que eles são...abomináveis. Dicas como estas estão listadas no site The Bathroom Diaires (Diários do Banheiro), serviço em inglês que lista mais de 8 mil banheiros públicos em mais de 100 países, incluindo sete cidades brasileiras. O sucesso é tanto que seu conteúdo já foi licensiado para palm pilots e celulares em algumas cidades dos EUA.

The Bathroom Diraries nasceu há três anos da iniciativa de uma jovem mãe americana que, cansada de ficar em casa vivendo em função do mundo infantil, resolveu criar algo diferente. Mary Ann Racin estava grávida de seis meses do segundo bebê quando resolveu passear em Paris com a filha de três anos. “Com crianças, vivemos em banheiros”, conta ela a NoMínimo. “E não há nada pior do que um banheiro turco, aquele buraco no chão, típico dos cafés parisienses”, reclama. “Não há sequer avisos indicando que o banheiro é assim”. Barriguda, ela fazia contorcionismos para carregar a filha no colo, tirar seus sapatinhos, despí-la e depois pendurá-la sobre o buraco. “Não queria que seus pézinhos tocassem aquele chão”, explica. Apuros como este deram luz à idéia do site. O nome foi inspirado no filme “Basketball Diaries” ou no livro “The Bridget Jones Diaries”. Qualquer um pode colaborar com a lista de banheiros pelo globo. Basta clicar no link “adicione um banheiro”, colocar o endereço do banheiro e responder à múltipla escolha indicando se o banheiro é unisex ou não, se fica aberto 24 horas, qual o tipo de privada, se tem acesso fácil para deficientes, fraldário ou chuveiro – e se é excelente, bom, terrível, seguro, ou, pelo menos, limpo. Há também um espaço para indicar se alguma celebridade foi vista nas redondezas - não necessariamente dentro do banheiro. Melhor assim.

E os transexuais?

Este é o primeiro e único projeto online de Mary Ann. No começo, ela pensava em se divertir e ajudar pais com crianças a tiracolo – mas depois percebeu que muita gente têm interesse no assunto. “Banheiros mal estruturados podem ser problemas para pessoas idosas e deficientes.” Ela conta que em museus como o British Museum, em Londres, chega a ter espaços para pessoas com incontinência urinária. Mary Ann também se surpreendeu ao descobrir o quão importante foi categorizar as listas dos banheiros em masculinos e femininos. Até então, não tinha se dado conta que este ainda é um obstáculo para transexuais. “Eles não sabem qual banheiro usar”, explica. “Há quem se decepcione ao ver uma pessoa vestida de mulher usando o mictório. O mesmo acontece quando uma pessoa masculinizada entra num banheiro feminino”, acrescenta. Ela diz que isso já virou um assunto moral – é complicado ter de decidir qual banheiro usar sem ainda ter decidido a própria sexualidade.

Ainda no site, pode-se ler relatos de leitores que contam sobre suas incursões pelo maravilho mundo do banheiro – ou do sem-banheiro. Divididos por regiões do mundo, relatos declaram que “é possível amar a Índia onde todo e qualquer esgoto é a céu aberto”. Outros revelam piriris internacionais, com episódios inéditos nas redorndezas de Petra no deserto jordaniano, durante sete horas num ônibus interestadual sem banheiro na Venezuela, em plena lua-de-mel num hotel mexicano onde o intestino funcionava demais e a descarga de menos – ou até mesmo num hotel meia-boca da Amazônia. Outros desabafos intestinais contam sobre uma visita a casa de amigos do Alaska, onde a privada da residência parecia normal, salvo um detalhe: tubulação ou descarga nem pensar. O “material” era recolhido se-ma-nal-men-te pelo serviço de lixo da cidade. Descarga também não chega a ser uma prioridade da cidade Maia de Chichen-Itzá, na península de Yucatán, no México. Perto de um templo, há um banheiro feminino onde lê-se o aviso “Não dê descarga”. Para tal função, há uma senhora que analisa a produção de cada pessoa para decidir a quantidade de papel higiênico cada visitante precisa – e que, nos intervalos, visita as privadas para avaliar se vale a pena dar uma puxadinha na descarga. Ou não.

Engana-se quem pensa que apenas os destinos considerados exóticos acumulam histórias do gênero. Quando o assunto é banheiro, Paris e Nova York perdem qualquer glamour conquistado em filmes, culinárias ou transações bilionárias. Além dos banheiros turcos experimentados por Mary Ann, um conto em The Bathroom Diaries revela que banheiros de hotéis e albergues parisienses podem ser tão pequenos, que o sujeito precisou sair do recinto para ter mobilidade para abaixar as calças. E só então voltou ao claustrofóbico espaço para cumpir sua obrigação natural. E em Nova York...bem, a terra de Marylin Monroe, James Dean e John Lennon, já ganhou o carinhoso apelido de New York Sh*tty. “Morei em Nova York por 10 anos – mesmo bons restaurantes têm péssimos banheiros. Já em outros, ir ao banheiro faz parte do programa”, diz Mary Ann.

E os mendigos?

Ela acha também que esta cidade deveria ter mais banheiros públicos para servir mendigos e pessoas com necessidades especiais. No domingo passado, o sol atraiu milhares de pessoas ao Central Park. As filas do banheiro eram tão grandes, que uma designer carioca que festejava seu aniversário no parque teve tempo suficiente para conhecer outra brasileira na fila. Ambas desitiram do banheiro, optando pela alternativa ecológica. Sem falar que nesta cidade, os indivíduos tem de pagar até pela “força da natureza”. Uma das histórias contadas no site diz que, depois de uma noitada de cerverja, um sujeito em apuros entrou numa lanchonete para usar o banheiro. Exigiram que ele comprasse um café. “Ora, eu queria eliminar líquido do corpo -não adicionar! ”, indigna-se.

Mary Ann conta que existem também aquelas mulheres que não querem tocar em nada, exigem que tudo seja automático, desde a descarga até torneira. Já para autora do site, o banheiro ideal é aquele que tem privadas para crianças – assim as mães não tem de pendurá-las de todos os jeitos. “Obvimente eles ainda devem ser limpos e com todos os apetrechos necessários – como um simples papel higiênico”, avisa. “Sei que há custos envolvidos com tudo – mas é incrível como tantos lugares não tem o básico”. Quanto à limpeza, Mary Ann explica que “o banheiro é tão limpo quanto seus usuários”. Por estas e outras, a autora gostaria de criar um prêmio ou sêlo de certificação para colar na porta de banheiros dignos de acolher um cidadão apertado.

Hoje, Mary Ann vive no estado de Virgínia, com o marido e duas filhas. Além de gerenciar o site, ela ainda dirige uma ONG que cuida de espaços comerciais e residenciais para artistas plásticos. Sobre Virgínia ela avisa logo que os banheiros da rede Wal-Mart são um lixo. Por sinal, ela sempre se perguntou por quê as pessoas não cuidam dos banheiros públicos como cuidam de seus próprios. E concluiu que esta é apenas uma reação: “quando alguém entra em um banheiro limpo, ela tenta mantê-lo assim. Quando o banheiro está imundo, a única vontade, além da inicial, é sair correndo de lá”.


[ copyright © 2004 by Tania Menai ]

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